Morre lentamente
Pablo Neruda
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não
ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem
não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do
hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma
nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o
negro sobre o branco e os pontos sobre os 'is' em
detrimento de um redemoinho de emoções justamente as
que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está
infeliz, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir
atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma
vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da
sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de
iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que
desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Morre lentamente.....
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 18h17
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Em forma na piscina
Na piscina, o ir e voltar, em plena harmonia, é o segredo do sucesso. Bullshit. Tomo um biotônico, penso em sacanagem, sugiro ao juiz um telescópio. Ele só vê crocodilos. Mas eu digo a ele, só há focas aqui! Treino, treino e mais treino, até a exaustão. Gostaria de ser um peixe de verdade, livre das marés, da pressão, do oxigênio poluído. Ufa! Era um sonho. Mas não poderia ser realidade? Fica a interrogação.
E se fosse realidade, seria um peixe de rabo bem grande, para nadar longas distâncias, atravessar oceanos, visitar os piratas do Caribe, estudar na escola de sereias, procuraria por Nemo, conheceria um peixe chamado Wanda, mas, infelizmente, o mar não está para peixe e nadar é o que resta, na imensidão azul, é colocar tudo por água abaixo e dizer “como água par chocolate”. E assim sobraram o velho e o mar.
(Exercício feito em aula na oficina de férias do curso de pós-graduação Formação de Escritores).
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 23h35
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Manhã, tão bonita manhã
Aquela manhã parecia como todas as outras, se não fosse o sereno esverdeado na soleira das portas. Ninguém pareceu se importar muito com aquilo, pois estavam atarefados com o dia que acabara de começar. As rosas tinham um aroma incomum, cítrico. Mas também não foi motivo de muita atenção. Todos estavam presos ao zodíaco, uma crença milenar que comandava os viventes daquele lugar. E se o zodíaco não prevera nada para aquele dia, por que iriam se importar com aquilo?
Abruptamente os humores começaram a mudar. Vozes berravam silenciosamente, porque ninguém podia ouvir, devido ao intenso e atípico estampido ocorrido durante a madrugada. Angústia. Este era o sentimento que dominava. Na verdade, sintetizava os olhares ensurdecedores daquelas pessoas. Era um momento fatal e o zodíaco não previra. Poderia ser evitado, mas que ninguém tomara conhecimento por serem apegados à crença de que o zodíaco era tudo. Foi assim. Não restou nem um suspiro depois daquele dia amanhecido com um sereno esverdeado e rosas com aroma cítrico.
(Exercício das 12 palavras em 15 linhas da oficina de férias do curso de pós-graduação Formação de escritores)
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 15h28
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Cento e um anos de solidão
A vida não tinha sido muito condescendente com ela. Passados mais de cem anos, era um milagre ainda estar viva. Seu corpo, carcomido pelo tempo, lutava contra tudo quanto era tipo de dor e incômodo: artrite, complicações gástricas, hemorróidas etc. e tal.
Não podia ficar só, pois não conseguia se movimentar como nos áureos tempos. Precisava de ajuda para subir escada, descer escada, fazer comida, comprar alimentos. Era impossível transitar na rua livremente. Sua idade tornara-a prisioneira de si mesma. Não ouvia quase nada. Alguém precisava atender à porta quando necessário, telefonar para o médico ou para algum parente.
Mas, infelizmente, de acordo com ela mesma, ela era completamente lúcida. Datas, horários, histórias recentes e passadas, pessoas, tudo ela sabia. Jornal lia todos os dias, livros, ah, os livros, além de reler os que mais gostava, apreciava literatura nova, como ela mesma chamava.
Por que infelizmente lúcida? Porque ela olhava os retratos com saudades daqueles que já tinham ido. Ela era a única viva. Solitária, largada, esquecida. Era de dar dó. Ela mostrava as fotos e dizia em português impecável, pronunciando os ês e os esses e erres: “Está vendo este daqui? Já morreu. E este? Também já se foi. O que é que eu estou fazendo aqui? Tanta gente mais jovem do que eu morrendo, com coisas para fazer, e eu, que já não tenho mais nada para fazer aqui, vivo”.
Era esta a sua vida. Os filhos sumiram. Era um casal. O rapaz, na década de cinqüenta, foi comprar pão e nunca mais voltou. A filha fugiu para sempre com o namorado indesejado. Procurados por advogados, só o rapaz foi encontrado. Viram-se em audiência, alguém tinha de sustentá-la. Mãe e filho se cruzaram no corredor do fórum e não se cumprimentaram. Não se reconheceram. Eles não se viam havia mais de meio século.
E a sua vida ia passando, um dia mais devagar que o outro. Lentamente o sol nascia e se punha na mesma rotina cansativa. Levantava, acordava, comia, não conversava com ninguém, assistia à novela, dormia. E assim o tempo passou. Assim o tempo continua passando. E assim ela continua esperando por nada.
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 20h03
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Desamparo
No esplendor da vida ela andava cabisbaixa. Chutando pedras, olhando os sapatos. Falta graxa aqui, está esfolado ali. Seu mundo era só esse. Sapatos, pedras, chão. Quando não chutava, era chutada. Humilhação. Mas pensava: “Um dia vou erguer os olhos”.
Pedra maior, pedra menor, e aquilo ia acumulando. Ia transtornando. Ia remoendo. Ia fervendo. Ia vomitando. Remoendo e refazendo e revivendo. E ela ia andando e a vida apunhalando. E os sapatos continuavam esfolados e desengraxados.
Ela chorava um pouco, mas o que mais doía mesmo era a raiva. Raiva dela mesma, de se deixar ser tão maltratada. “Vida imbecil”. Ela era dependente disso. Não sabia viver sem isso. Sem o desprezo, sem a dor. A dor era um bálsamo, uma alegria. Quando ela não sentia tanta dor, procurava lembrar-se de algo triste, para que o sentimento voltasse e assim ela continuava a chutar pedras e a olhar os sapatos desengraxados e esfolados.
Assim ela nunca tropeçaria. Já conhecia este caminho. Murcho, insosso, mas seguro. Se ela tivesse ao menos coragem de se rebelar! Mas, não, se sentia desamparada só de pensar em ser feliz. Coisa que ela não conhecia, porque nunca tinha experimentado. Felicidade para ela eram sapatos desengraxados e esfolados.
E a vida ia distribuindo seus dias. Para uns, o sol amanhecia maravilhosamente, para outros, nem tanto. Para ela, nunca. Seu fardo era chutar pedras e olhar os sapatos desengraxados e esfolados.
De tanto olhar os sapatos desengraxados e esfolados, ela passou a odiá-los. A cada dia este ódio ia crescendo. Sua vida tornou-se o ódio que ela tinha dos sapatos esfolados e desengraxados. Até que teve coragem. Pegou uma faca, cortou os pés e saiu voando. Para nunca mais voltar, chutar pedras e olhar aqueles sapatos desengraxados e esfolados.
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 18h24
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Anjo
Sua força era o ódio. Seus olhos gotejavam maldade. Destilavam desprezo. O amor era banalidade em sua vida. Ela menosprezava os que mendigavam por sua atenção. Era este o seu divertimento. Não havia nada de verdadeiro naquela alma. Melhor, quase nada. A única coisa verdadeira nela era a falsidade e o ódio.
Ela se divertia manipulando, usando e dilacerando pessoas. O som de sua risada era sarcástico. Olhar penetrante. Frio. Calculista. Firme. Tinha uma percepção afinada e refinada. Bons modos, educada. Mas seus sentimentos eram podres. Não sossegava enquanto não envenenasse àqueles que caíam em seus domínios. Pérfida.
E ela encantava porque era magnífica. Tinha rosto de anjo. Parecia meiga, suave, plácida, até. Podia vestir este disfarce por anos. Mas seu íntimo era tão desprezível, que esperaria a vida toda para se satisfazer brincando sutilmente com os sentimentos alheios.
Ela não admitia concorrência. Não havia concorrência para ela. Desde sempre. Desde que nascera. Linda. E perigosa. E cativante. Era tão manipuladora, que nem sua mãe a conhecia. Muito menos seu pai. Ela cegava as pessoas. Encantava. Ela crescera tão linda que seu ódio tornava-se puro, belo, nobre. Era capaz de fazer caridade, de ouvir as pessoas, até de ajudá-las. Todos acreditavam nela.
Mas sua beleza e astúcia não a salvaram da morte. Uma morte sangrenta, fria, merecida. Não sobrou nada dela. Os cães que vagavam nas ruas comeram seus restos. Como ninguém a viu morta, disseram que foi arrebatada para os céus. Virou santa. Virou anjo.
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 14h13
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Fixação
Tudo ela limpava e arrumava. Os móveis, a cozinha, os livros, os azulejos, as panelas, a mesa de trabalho, o computador. Tudo o que estava ao seu alcance. A única coisa que ela não conseguia arrumar era ela mesma.
Cada livro que ela lia, quando terminava, era como se aquele exemplar nunca tivesse sido aberto. Em compensação, ela se sentia como se tivesse sido revirada e explorada. Cada roupa que ela guardava no armário estava impecavelmente passada e dobrada. Para contrabalançar, ela se vestia como se tivesse acabado de levar uma surra.
Cada prato que ela colocava no armário era como se estivesse em exposição em uma loja. Para esconder a vontade que ela tinha de se trancar e nunca mais ser vista. Cada azulejo que ela limpava era como se ela estivesse lapidando uma jóia. Para esconder a própria sujeira.
Cada cantinho da sua mesa de trabalho que ela organizava era como se estivesse preparando uma mesa de um jantar de gala. Para disfarçar sua incompreensão dos fatos. Cada panela que ela lavava e guardava era como se ela estivesse colocando uma flor raríssima em um vaso. Para esconder a sua falta de apetite com a vida.
Tudo em sua casa era impecável. Menos sua vida. Muito pelo contrário. Um dia ela se encheu. Deu todos os livros, roupas, vendeu o pouco que tinha e não se deu ao trabalho de pedir demissão. Sumiu. Foi encontrar-se. E viveu feliz para sempre.
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 22h52
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“Não vemos o mundo como ele é, mas como nós somos”.
Talmude
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 10h50
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Feições
O cara tinha cara de lustre. Isso mesmo, cara de lustre. Eu nunca tinha visto ninguém assim. Já vi gente com cara de cavalo, de maçaneta, de cachorro, mas, de lustre, nunca. Ele era alto, careca, magro e, quando sorria, parecia uma lâmpada acesa.
Maldade? Não. Ele era feliz daquele jeito. Tinha uma esposa que era parecida com ele. Só não era careca, mas tinha um semblante parecido. Eu já tinha visto casais semelhantes, mas não como esse. Por exemplo, uma vez conheci um cara que tinha a boca torta. A boca dele não era no meio do rosto como todo mundo, era na bochecha. Anos mais tarde eu o reencontrei e ele tinha uma esposa, também com a boca no meio da bochecha. Eles podiam ficar se beijando de lado e ninguém percebia. Há suas vantagens.
Mas o homem-lustre era impressionante. Parecia refletir. Se se tratava de uma pessoa iluminada, não sei, nunca conversei com ele. Ele tomava café-da-manhã na mesma padaria que eu. O pior é que não podia ficar olhando, já pensou ele imaginar que talvez fosse um flerte casual? Jamais. Nunca. Em hipótese alguma. Toda manhã era a mesma coisa: pingado e pão com manteiga na chapa.
No fim-de-semana que eu o vi com a esposa eu quase tive um troço. Olhei incrédula. Ela era realmente a luz de sua vida. Ela tinha uma testa enorme, sem disfarces, tipo franja, coisas de mulher, e sorria com mais dentes na boca que um ser humano pudesse ter.
Passou o tempo, as coisas, como sempre, mudam, as pessoas circulam e eu nunca mais vi o tal sujeito. Um dia, na mesma padaria, alguém do meu lado pro Zé do balcão:
- E aí, Zé, cadê o Lampinha? Nunca mais vi o cara!
Boquiaberta e confusa olhei para o cara. Eu estava crente que só eu tinha reparado no homem-lustre. Mas, não, a impressão era pública e notória.
O Zé, apontando para cima disse, olha ele lá. O homem-lustre tinha se tornado realmente um lustre. O homem lustre tinha se tornado ilustre.
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 22h53
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D. Ruth
Eu ando meio sem assunto. Aliás, aquela inspiração toda do primeiro módulo sumiu. Mas, ela já volta. Enquanto isso, fico aqui pensando na d. Ruth Cardoso e no FHC. Ontem, quando entrei na Internet, à noite, dei de cara com a notícia de sua morte. Fiquei triste. Bem triste. Eu gostava dela. Do casal, na verdade.
Eu sempre imaginei ela de camisolinha de babado, à noite, preparando-se para dormir, o FHC já debaixo dos lençóis, lendo na cama, com os óculos na ponta do nariz, esperando por ela. Ela, terminando de passar os cremes no rosto, nas mãos, sentando à beira da cama, tirando os chinelos, dizendo: - Esse rapaz que o substituiu está abusando da confiança dos brasileiros. (ela tinha o português impecável) E o FHC respondendo: -grhn.
- Nando, meu bem, no seu tempo não se falava tanto em pizza.
- grhn.
- Você não acha que está na hora de voltar para moralizar um pouco essa história, salvar ao menos o nome do partido... por falar nisso, a empregada não pregou o botão da sua camisa hoje. Amanhã, você vai ter de usar aquela branca que separei.
- grhn.
- Lembra quando as crianças eram pequenas? Ah! aqueles tempos no Chile! Não dá nem para acreditar! Tanto esforço por nada! A gente até comia empanada, mas pizza nunca. Amor, diz alguma coisa.
- grhn.
- Sabe, acho que vou fazer uma visitinha em alguma favela amanhã. Se você não fosse tão famoso eu o convidaria para ir comigo. Mas não dá. Seria um reboliço danado.
- grhn.
- Beim, vai mais um pouquinho pra lá, você está no meio da cama.
- grhn.
- Não tanto, hoje está frio...
É realmente com tristeza que penso na morte dela. Se o FHC conseguir dormir hoje, vai encontrar uma cama fria. Se não for nesta noite, será na próxima. D. Ruth tinha a mesma idade de minha mãe. Eu realmente sinto muito.
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 23h17
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Quadro Branco
Vejo aquele quadro branco, alvo, liso e brilhante esperando ser acariciado por uma caneta que escreve letras, palavras, frases, orações e períodos. Quantas idéias já foram expostas ali, naquele retângulo que nem vida tem e, de repente, de uma hora para outra, se enche de sentido, com apologias ou protestos.
Será filosofia? Ou é gramática? Não importa. Cada palavra ali tem o dom de dar vida àquele quadro inóspito, frio e sem graça. Antigamente, o quadro tinha certa imponência. Era negro, traçado por linhas ou palavras brancas, na maioria das vezes. Destacava-se na parede da sala. Hoje, uma coisa sem personalidade, sem graça mesmo.
Mas ele pode ganhar vida, muita vida. Pode viajar, trazer uma bela paisagem, pode trazer as maiores fantasias. Mesmo sem graça, é uma janela para o infinito. Para o mundo especial. Outro dia sustentou palavras traduzidas de Thomas Mann. Isso para dar um rápido exemplo. As palavras não só ocuparam um espaço enorme no quadro branco, como encheram a sala. Foi apoteótico.
Mas, triste fim do quadro branco, a beleza das palavras logo se diluem. Ao esfregar de um apagador, as palavras somem, as letras caem, fazendo um barulho terrível. Olho para o chão e vejo todas as letras ali, prontas para formarem histórias e mais histórias. Todas novas, ávidas por acontecer e serem conhecidas. Penso, pego-as com uma pá? Cadê a vassoura? Mas não, é uma simples ilusão. A ilusão do quadro branco.
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 23h22
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«Os políticos e as fraldas devem ser mudados freqüentemente e pela mesma razão.»
Eça de Queiroz
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 10h58
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Escrito por Patricia Cytrynowicz às 00h18
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Perfeição
Ela era perfeita. Estudara no exterior durante anos. Fez faculdade fora. Depois, aprimorou o francês em um curso rápido em Paris e seguiu para Londres, onde fez um curso de pós-graduação qualquer. Talvez uma especialização em política. Falava cinco línguas fluentemente, sem sotaque: inglês, francês, espanhol, hebraico e árabe, além da sua língua materna, o português, claro.
Era também linda. Pele alvíssima, cabelos negros, longos, viçosos e brilhantes. O corpo, então, escultural. Assim que chegou ao Brasil, arrumou o emprego dos sonhos. No início era um cargo comum, mas, depois de dois meses, conseguiu posição de destaque, com um salário invejável. Ela tinha tempo para tudo. Para se dedicar integralmente ao trabalho, para cuidar da casa, para cursar aulas de dança duas vezes por semana. Dedicava-se também com devoção à família, aos pais, já que não era casada, aos amigos e à vida cultural. Mais não cabia em sua personalidade.
Um dia, se atrasara um pouco ao sair para o trabalho, logo pela manhã, e saiu de casa sem se olhar no espelho. Distraída, não percebeu que a olhavam curiosos quando desceu do carro. Entrou no trabalho e todos ficaram constrangidos e não comentaram nada. Naquele dia ela estava se sentindo especial. Livre. Estava tão absorta em si mesma, que não notou os olhares surpresos lançados sobre ela. Nem ao longo do dia no trabalho, nem no restaurante em que costumava almoçar.
Foi um espanto. Ela estava tão bem, que ninguém teve coragem de lhe dizer. Terminou o dia, ficou um pouquinho mais no trabalho. Antes de pegar o carro e voltar para casa, deu ainda uma voltinha na rua para olhar as vitrines das lojas. Entrou em um supermercado expresso, comprou alguma coisa para preparar para o jantar e se foi. Chegando em casa, colocou as coisas na cozinha, foi até o banheiro lavar as mãos. Olhou-se no espelho e admirou-se. Finalmente, depois de muito tempo, ela teve um dia normal, como se não fosse perfeita.
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 21h43
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Alta Costura
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Arremate.
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Arremate.
Ponto Final.
Escrito por Patricia Cytrynowicz às 17h57
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